quinta-feira, 23 de Outubro de 2008

O Minotauro, o Mito e o Caminho da Alma

Reza o mito que existia no Palácio de Minos, em Knossos, um labirinto subterrâneo construído pelo Rei para esconder o Minotauro.

Pasífae, a rainha que viria a dar à luz este ser, metade touro metade homem, ter-se-ia, por maldição, apaixonado pelo touro branco que o Rei Minos se recusara a oferecer em sacrifício ao deus Posídon.

Nesses tempos, ainda não brotara no Homem, nem o dominara, a arrogância suportada por essa mente fragmentária e arrogante que conhecemos hoje em dia e através da qual a maior parte de nós se relaciona com o mundo; por essa mente que busca o poder controlando e escalpelizando o mundo da matéria para lhe eliminar qualquer resquício de espírito ou totalidade; por essa mente lamentável mas inevitavelmente desprovida de quaisquer capacidades de encantamento ou reverência perante a sacralidade da vida e a existência de uma Ordem Maior.


Nesse tempo, o Homem já sabia – ainda sabia - encontrar na aceitação tranquila da sua sujeição aos poderes maiores, personificados pelos deuses mitológicos, a verdadeira dimensão da sua dignidade, e isso permitia-lhe assumir, grandiosamente, as consequências da sua hubris, o seu orgulho, quando a vontade dos deuses não era cumprida por causa dos seus pequenos caprichos humanos.

E Minos, na memória colectiva, foi um desses pecadores, e cometeu o maior dos pecados. Tentou enganar os deuses, neste caso Posídon, querendo ficar com o Touro mais belo que deveria ter sido oferecido em honra ao Deus (o pecado Taurino do apego, da propriedade e da posse), e a sua hubris foi castigada com a paixão arrebatadora com que a sua mulher Pasífae se fez possuir pelo touro, disfarçando-se no seu ardor desesperado de vaca de madeira de modo a que o touro a pudesse cobrir.

O fruto dessa união foi o Minotauro, que corporificou não só a paixão da humana pelo animal e assim a degradação da sua condição de humana e a sua traição ao marido, mas também a própria traição original de Minos ao deus; e porque com essa tripla vergonha não tolerava Minos arcar o resto da vida, mandou a Dedalus que construísse um labirinto para esconder dos olhares alheios o enteado, como se esconder os frutos das suas acções lhe pudesse aliviar a consciência e alijar as consequências indesejáveis das suas escolhas passadas.

Teseu, revela o mesmo mito, tornar-se-ia o único a sair do labirinto com vida, o herói que viria a ser aclamado por conseguir matar o Minotauro. Para o conseguir, recebeu das mãos de Ariadne, sua amante e filha do trágico rei, um fio mágico de prata que Teseu foi desenrolando enquanto deambulava pelos corredores intrincados do labirinto do Minotauro; assim, podia saber não só como percorrer o labirinto sem se perder, mas no final voltar a sair e regressar ao local original por onde entrara para cumprir a missão.

Uma vez morto o Minotauro, Teseu reconstituiu o percurso e graças ao fio mágico e pode vir ao reencontro da sua bem-amada, cumprindo por mais uma vez esse ciclo eterno da reunião do masculino com o feminino, a dança da integração dos opostos que se repete infinitamente em todas as cosmogonias e contos de fadas, em todas as vidas humanas, todos os meses nos céus no rigor cíclico das fases da Lua, em todos os relacionamentos, em toda a Alquimia, em todas as leis do electromagnetismo, em todas as formas de organização social, em todas as famílias, em todas as cópulas.


Chamava a esta reunião e à síntese dos pólos que ela representa Carl Jung Mysterium Coniunctionis, referindo-se ao mesmo a que outros se referem como hierogamia ou, quando a reunião dos dois pólos ocorre dentro de um único ser que sintetiza harmoniosa e criativamente as suas polaridades internas, androginia. E que é o mesmo processo do casamento, ou da fusão, da Personalidade com a Alma.

Numa leitura simbólica do mito, e porque todo o mito é a forma de transmissão por excelência de verdades profundas e eternas, Teseu pode ser considerado um símbolo para a Personalidade, jovem, inexperiente e ansiosa por acção, por intervir no mundo externo e repor qualquer tipo de ordem, confrontando o desequilíbrio das circunstâncias.


Ariadne, com o seu apoio silencioso e discreto mas indispensável, e a sua sabedoria feminina, pode ser considerada um símbolo para a Alma; da mesma forma, o Minotauro pode ser considerado um símbolo das paixões instintivas que se movem prisioneiras dentro de cada um de nós. É curioso notar, aliás, como este ser híbrido nasceu na confluência do humano com o animal, da mesma forma que as paixões instintivas (como o desejo, ou a posse) nos aproximam mais da dimensão animal do que da verdadeiramente humana; todo o mito, e qualquer linguagem simbólica, são carregados de simbolismo para descodificar.

Na vida prática, quem tem o signo de Touro fortemente enfatizado no seu horóscopo (Sol, Lua, Ascendente e/ou outros Planetas ou pontos importantes) tem o mesmo desafio de Teseu: vencer o apelo magnético dos instintos animais em si próprio, vencer o Minotauro interno, e regressar à reunião com a pureza da sua própria Alma. Isto não é folclore, nem poesia – conheço, da observação da vida quotidiana e dos meus ficheiros de clientes, inúmeras estórias que ilustram as tentações carnais, os desafios do desejo e as fraquezas de quem tem um Touro para domar dentro de si – e de alguma forma, todos temos. Mas uns, parafraseando Orwell, têm mais do que outros.

E isso não implica que não haja, simultaneamente, um apelo fortemente espiritual ou que as pessoas não sejam relativamente “espiritualizadas”. Assim de repente, consigo pensar por exemplo num professor de yoga e num budista a quem os cânticos, a pranayama, as asanas e a meditação ainda não foram suficientes para vencerem a bestialidade instintiva que se lhes move dentro. Um tem o Sol em Touro e o outro o Ascendente. Nenhum deles tem ainda, bem claro dentro de si, se quer elevar a vibração das suas alunas e seguidoras - ou possuí-las. Suponho que continuem a tentar fazer ambas as coisas, como se fosse viável, conciliável ou possível. Enquanto há Vida, há testes à Personalidade e a tensão na sua relação com a Alma.

Talvez o segredo para matar o Minotauro seja, tal como ensina o mito, manter forte a ligação ao fio de prata da Alma e recordar, a cada instante, que o objectivo é subjugar o animal e não ser comido por ele, é dominar os instintos e não ser dominado, é vencer o inferior em nós e sair vitorioso – sendo que não há outra vitória senão a do casamento sagrado que celebrará, no regresso, a consagração do guerreiro, sangrado e cansado dos labirínticos esquemas que a mente humana fabrica para nos manter prisioneiros da natureza inferior.



Nuno Michaels

terça-feira, 14 de Outubro de 2008

desabafo

"... mas isso é científico?...", perguntam-nos tantos com narizes torcidos, esgares retorcidos e olhos lassos

e há no meu suspiro ironias e cansaços...

por que não perguntam antes coisas sobre a própria Astrologia (qual é o seu modelo, quais os seus pressupostos, qual a sua vocação, os seus propósitos, as suas possibilidades, como pensam os astrólogos, em que discordam, com que assuntos éticos se debatem, que dificuldades têm, quantas abordagens existem à Astrologia, se existem interpretações universais e indistintas dos mesmos factores, como pode ajudar o ser humano, se existe relação com alguma religião, etc.), em vez de limitarem as perguntas a questionar a validade científica ou a sua mercantilização imbecilizante e usurpadora - no fundo, uma das formas, a mais repreensível de todas -, da sua apresentação final?



É que, vamos dimensionar a coisa em termos compreensiveis para a pequenina mente moderna, ocupada de provas, factos, demonstrações, racionalizações e... números, quantidades - em vez de arquétipos, energias, temas existenciais e princípios, qualidades:

em Marketing, por exemplo, é clássico (embora alguns considerem ultrapassado, falando de seis, alguns, de sete e de nove, de dez ou de doze P's do marketing) entender-se a situação de um produto/serviço no mercado em função do chamado marketing-mix. Os chamados "4 P's do marketing mix" são o produto (Product), o preço (Price), a distribuição (Place) e a comunicação (Promotion).



O produto "Astrologia" muito poucos sabem o que é - excepto aqueles, quanto muito, que realmente se dedicam a aprendê-la. Mas esses, a única coisa que saberão, provavelmente, é que continuam a aprender e que, quanto mais aprendem, mais sentido retiram de toda a experiencia, e mais fácil é entrar num processo de acelerada transformação pessoal e de expansão da consciência.

E ainda assim, é uma área tão imensa que ninguém no seu juízo perfeito poderá afirmar, em reconhecimento da verdade, que "sabe" realmente Astrologia, que conhece cabalmente o "produto", que tem o domínio que lhe confere a legitimidade de fundar a "narrativa original" a partir do qual se origine um consenso que sirva de ponto de partida a uma verdadeira discussão sobre o assunto.




Que se entra numa espiral acelerada de compreensão súbita, e de reverência pela imensidão do Mistério, isso é tudo o que se sabe.



E isso traz imensa paz, o conhecimento puramente intelectual deixa de ser importante. Passa-se a compreender a Vida intuitivamente - o aparelho de pensar deixa de precisar trabalhar em inutilidades, em continuar a trabalhar a seco e no vazio de energia espiritual. Como um moínho eléctrico que se aquieta, que se desliga e só se liga quando é necessário fazer um refresh nas ideias, e então faz-se F5 e actualiza-se o écran mental, volta-se a ligá-lo, que é como quem diz, liga-se outra vez o moínho para usar enquanto for preciso, para o desligar novamente em seguida para não perder mais energia. E é um sossego quando isso sucede.



Mas saber, no sentido de haver uma certeza fundamental que esteja na base da realidade, fazendo com que algo de fundamentalmente verdadeiro e cognoscível exista que possa ser aceite como uma evidência, a única coisa que realmente sabemos é que quanto mais sabemos menos sabemos, e que quanto mais compreendemos menos temos a necessidade de compreender e passamos muito mais a simplesmente experienciar a experiencia, com a consciência objectiva do que está a acontecer, e a experiencia de vida transforma-se num processo extremamente simples, impessoal e objectivo: um processo de manifestação de energias a ter lugar através de nós.



Mas sobre o produto "Astrologia" ninguém sabe nada, no fundo, nada de total quero eu dizer. Cada um tem a sua visão, fruto da sua miopia e do seu estudo, da sua intuição e da qualidade do seu Coração, do seu percurso de vida e da sua própria natureza, e de miríades de outros factores, inomináveis de tantos e inúteis.



Aquilo que uma massa de pessoas pode partilhar como conhecimento sobre uma realidade que não conhece não é verdadeira episteme, não é verdadeiro conhecimento; é mais do domínio da doxa, da opinião. É uma narrativa partilhada, que circula infinitamente pelos circuitos sociais da comunicação de massa, que ao ser enriquecida de novos conhecimentos não se torna propriedade de todos, mas apenas de alguns, daqueles que ressoam com esses conhecimentos.

Colectivamente, o avançar do conhecimento não torna as representações colectivas mais lúcidas ou esclarecidas; pelo contrário, torna-as mais vagas, ainda mais abstractas, ainda mais genéricas, porque há dados novos numa meada à qual já perdemos o fio há muito tempo e ainda nos esforçamos por compreender os seus desenvolvimentos, inutilmente. O que a massa partilha é, na essência, uma representação social fabricada entre o imaginário colectivo inconsciente e as narrativas produzidas em circulação.

Em suma, sobre o "Produto" ninguém sabe muito bem do que está a falar.

Sobre o Preço, a massa parece de acordo numa coisa: seja qual for o preço, e seja qual for o valor (que são coisas profundamente diferentes), é caro. Aliás, nem deveria ser cobrado, ter um preço. Não deveria servir para ninguém ganhar dinheiro - independentemente do quanto tenha investido, do que tenha abdicado, da qualidade do trabalho que faça. Ganhar dinheiro "eticamente" é a ser engenheiro, arquitecto, médico, psicólogo, construtor civil, ter uma profissão "normal". Não sei bem em que categoria se encaixariam os banqueiros, os políticos, o jet-set, os modelos e actores das televisões das massas e os senhores por detrás da comunicação social, mas uma coisa é certa - os astrólogos não deveriam ganhar dinheiro com um "Produto" que na realidade ninguém sequer sabe qual é.

Sobre a Distribuição, está por todo o lado. Em revistas, em sites, na televisão, nos jornais, nas bancas em almanaques, espalhando-se selvagem e perigosamente sem nenhuma marca distintiva exterior da sua qualidade relativa - porque apenas a intuição desenvolvida pode ajudar a discriminar.

A Distribuição do produto/serviço "Astrologia" está tão generalizado que a pobreza generalizada é uma consequência inevitável - acontece o mesmo com os conteúdos televisivos, o refinamento do conteúdo dos programas e jornais desportivos, com o pronto-a-vestir, com as obras "literárias" para consumo das massas: a quantas mais pessoas se tem de chegar, mais tem de se sacrificar a qualidade.

Além disso, hoje em dia pululam astrólogos (onde me incluo, eu também pululo e toda a gente tem direito a pulular - defenda, desde já, o seu direito a pulular. Pulule connosco!), centros de "terapias" e "gurus espirituais" que "canalizam" entidades supostamente mais evoluídas do que eles próprios, pululam portais, pululam ameças de destruição do planeta se não seguirmos os novos dez mandamentos escritos há dois anos por qualquer esquizofrenico num surto psicótico - ou numa trip de cogumelos mágicos (e há trips bastante más!) que largas porções da humanidade actual, desorientada e desesperada, seguem e engolem bovinamente.

Há tantos "iluminados" que sabem exactamente o que os outros "devem" fazer das suas vidas para "evoluir". Geralmente, culpabilizando, julgando, acusando e tentando manipular e controlar os outros escondidos na sua mesquinha estupidez por detrás da capa de "astrólogos", "terapeutas" e outros quejandos. Ainda se safam porque a maioria da humanidade ainda vive nesta Nova Era como vivia a relação com a igreja há quase dois mil anos: obedientemente, acriticamente, e aliviados por ter alguém que lhes diga o que fazer e a quem possam entregar o poder de pensar, o poder de escolher, o poder de decidir.

Mas bom, isto era a propósito da Distribuição e estes são os "pontos de venda" modernos da nossa arte bem-amada.

Quanto à Comunicação, há embrulhos e pacotes para todos os gostos. Desde os pregões do "resolver problemas" até ao "prever o futuro", passando pelas glamourosas explicações "kármicas" de que na vida passada éramos sacerdotes na Atlântida (não admira que se tenha afundado, ninguém trabalhava, com a quantidade de sacerdotes na Atlântida que existia não devia haver muita gente capaz de fazer algo de realmente útil por essa sociedade...) ou que éramos muito agressivos e furávamos os olhos a quem nos olhava de lado e por isso é que nascemos vesgos, ou que abandonámos os nossos maridos por isso é que agora temos que levar com este, há de tudo.

Com um Produto desconhecido das massas, com um Preço impossível, com uma Distribuição adequada a uma sociedade desconectada, tonta e fascinada com o materialismo e a materialidade, e uma Comunicação destinada mais a manipular e enganar o seu target, não admira que precisemos de nos interrogar: mas isso é científico?

Claro que não é científico. É metafísico.

Mas grave, grave, não é que não seja científico. É que ainda existam tantos, cada vez mais, a tentar aproveitar-se de tantos, cada vez menos. A este ritmo, qualquer dia não há otários. Somos todos "iluminados" (desde que façamos o que o astrólogo nos diz, se nos vestirmos como ele, e usarmos o mesmo gel de banho, naturalmente, e nunca questionarmos a sua suposta "sabedoria" que mora nos astros, muito muito acima da capacidade de entendimento dos meros mortais..)

E mais grave ainda é que alguns tenham de trabalhar dentro desta caldeirada. Que nos ajude deus a recordar a verdade curta, simples, e luminosa de que cada um tem os astrólogos (e tudo o resto) que merece.


Mas digam lá, não querem mesmo saber nada sobre a própria Astrologia? Compreendo, só vos interessa o facto de haver um preço, tantos ponto de venda não qualificados, e uma política de comunicação que é fruto da própria sociedade em que circula...

Compreendo, é a moderna mente light, a moderna mente polarizada nas aparências, a moderna mente demente.