sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

O Ursinho polar (parte 4)

(...) E assim, o ursinho inaugurou talvez uma nova era glaciar, em que pela primeira vez um urso polar admitiu que tinha frio, e talvez tenha com isso dado origem a uma nova sociedade de ursos no futuro.

Quiçá nesse momento o pai tivesse optado pelo amor ao seu filho em detrimento da sujeição cega à tradição e à normalidade e tivesse escolhido ajudá-lo a ser quem ele era, um ursinho polar cheio de frio.

Quem sabe o pai tivesse dado início a uma campanha de sensibilização para os ursos polares que vivem com frio e outros ursinhos inadequados se tivessem permitido sair do segredo e do desconforto das prisões dos seus próprios papéis sociais e se tivesse criado um movimento dos ursos com frio.

Quem sabe naquele glaciar tivesse sido criado um programa especial para enviar para os trópicos os ursinhos que tivessem frio, ou passasse a ser socialmente aceite que os ursos que queiram pudessem usar casaco, gorro e samarra.

Quem sabe o pai tivesse pegado nas suas economias e enviado o ursinho para a savana africana, ou o tivesse inscrito num programa de intercâmbio com girafas calorentas.

Quem sabe o que aconteceu a partir desse momento. Mas podemos imaginar, sonhar, e supôr.

A nós, só nos resta esperar que cada um de nós possa admitir, perante si próprio e perante os seus pares, o frio que cada um de nós sente – na certeza que não existe outro caminho para a integração emocional, para o poder pessoal, para a libertação da tirania dos papéis sociais, e para a evolução da sociedade de que fazemos parte. Não imaginamos o que fazemos pelo conjunto quando fazemos a nossa parte como partes.

E um dia, assim corajosos e inteiros, todos estaremos em harmonia connosco próprios e contribuindo à medida do nosso frio – e da nossa coragem para admitirmos quem somos - para um futuro em que a verdade de quem somos, e não a tradição e as regras, ditem os limites da integridade, da liberdade pessoal, e do saudável auto-respeito pelo que somos, sentimos, e precisamos para sermos felizes.

(© Nuno Michaels 2007. Todos os direitos reservados)

terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

O Ursinho Polar (parte 3)

(...) E aqui encontramos mais um tema arquetípico da existência: para cada papel que desempenhamos existe um conjunto de atribuições, expectativas, funções e capacidades intimamente a ele associadas. Espera-se de um urso polar que coma peixe, que esteja coberto de pelo e largas camadas de gordura, que viva confortável no seu habitat glaciar. Não se espera que tenha frio, assim como não se espera que suba às árvores, que rache cocos com os dentes ou que acasale com morsas.

A existência de papéis confere uma identidade social a cada um dos elementos de um grupo, atribui-lhes funções e comportamentos relativamente previsíveis, gostos, preferências, rotinas e padrões. Os papéis contribuem para a estabilidade e para a coesão social, de modo a que cada um sabe o que deve fazer e o que esperar de cada um dos outros.


A aprovação dos outros, o sentimento de integração no grupo, o sentimento de adequação e normalidade vêm com a capacidade de desempenhar adequadamente esses papéis. O caos social e a alienação individual nascem quando os indivíduos se recusam, se sentem incapazes ou indisponíveis para desempenhar adequadamente os seus papéis – como o ursinho que tinha frio.

E se grande parte do nosso sentimento de valor nos é devolvido pela aprovação dos outros, pelo sentimento de encaixar adequadamente no nicho que nos é atribuído pelos nossos papéis e pela nossa desenvoltura em assumi-los, compreendemos o quão inadequado, inferiorizado e inseguro se sentiria o ursinho polar que tinha frio.


Era um ursinho deslocado, condenado à marginalização ou à auto-exclusão, à revolta e à alienação – ou um ursinho condenado a lidar sozinho e secretamente com a sua própria falha apercebida, processo tão mais angustiante quanto mais o ursinho se obrigasse, a prazo, a ocultar de si próprio e dos outros a verdade do seu interior, a verdade da sua hipotermia.

E a prazo, à medida que mais e mais energia fosse mobilizada para defender o corpo do frio, ou para viver à altura de um papel para o qual não tinha capacidade, o ursinho deprimiria e sucumbiria, finalmente, ou ao frio ou à evidência da necessidade de se agasalhar – defraudando assim tudo quanto seria esperar de um ursinho polar mesmo purinho, purinho.

Mas porque este ursinho foi capaz de procurar ajuda para lidar com o seu próprio senso de inadequação, e encontrou no pai a receptividade à sua angústia, pôde desabafar e admitir perante o outro o terrível segredo que o consumia.


Em vez de continuar a ocultar dos outros a verdade de quem era, e a sofrer secretamente a grande dor inconfessável, o ursinho procurou – e encontrou – o meio e o contentor com quem partilhar a verdade de quem era, apesar de ter consciência do que deveria sentir (ou, neste caso, não sentir) e de antecipar, eventualmente, as possíveis consequências de não estar à altura do seu papel, das expectativas dos seus parentes, da sua raça, da sua sociedade e da memória de dezenas de gerações antes dele, que habitam ainda gravadas em cada um dos seus genes.

Astrologicamente, falaríamos no arquétipo do Sol e de Saturno e da necessidade de os integrar: o Sol refere-se à capacidade de se assumir na integridade de quem se é e na necessidade de ser reconhecido, aceite e encontrar aprovação para nossa identidade, e Saturno simboliza a capacidade de estar à altura dos papéis sociais que assumimos.


Por isso se fala em Saturno como “responsabilidade”, ou seja, a capacidade (habilidade) de dar responsa, isto é, resposta; e qualquer interacção entre Sol e Saturno simboliza, assim, a necessidade de assumirmos responsavelmente (Saturno) quem somos (Sol).

Por isso, também, qualquer interacção entre Sol e Saturno num tema astrológico fala da necessidade de encontrar aprovação social, isto é, exterior, para quem somos.


E por isso, ainda, as interacções entre o Sol e Saturno falam da necessidade de iluminar (Sol) os nossos medos e sentimentos de inadequação (Saturno), de não estarmos à altura, de não sermos suficientemente bons.

E por isso falam também da capacidade de nos aceitarmos na nossa imperfeição e na capacidade de admitirmos que somos quem, e como, somos a cada momento de vida.

Por isso falam também da capacidade de nos aprovarmos (Saturno) a nós mesmos (Sol), e de trazer à luz do dia (Sol) o hiato entre quem somos (Sol) e o que acreditamos que deveríamos ser (Saturno), o que a nossa sociedade espera de nós (Saturno), o que as figuras de autoridade esperam de nós (Saturno), o que os nossos papéis sociais (Saturno) implicam, o que precisamos de ser (Sol) para termos aprovação, aceitação e estatuto (Saturno).


Por isso falam também na limitação (Saturno) dos níveis de calor (Sol) do organismo, manifestando-se como o frio crónico de que sofria o ursinho.

Quem sabe o ursinho tivesse nascido sob uma destas quadraturas, e com uma Lua difícil (a mãe) que não o soube conter. Talvez o ursinho tivesse nascido com um Urano (o planeta da diferença, da originalidade singular, do inesperado e de tudo o que vai “contra” o que é normal, aceitável, aprovado ou esperado pelos outros) muito forte. E talvez este Urano estivesse na Casa IV do seu tema astrológico, que é a Casa do “lar” em que se nasceu, sugerindo que o ursinho tivesse nascido a sentir-se alienado daquele meio, como se ali não pertencesse e não pudesse cumprir-se, ou ser feliz, no seu local de origem.

Talvez o tema astrológico do ursinho sugerisse a dificuldade em aceitar a encarnação como urso, pelo menos naquele glaciar e naquele tempo histórico, com o conjunto de papéis atribuídos aos ursos polares pela sociedade de ursos em que nasceu. Talvez estivesse aí simbolizado um “karma” de não ser feliz enquanto não tivesse a audácia e a coragem de romper com os estereótipos sociais associados a ser urso. Talvez o ursinho, mercê do Urano, estivesse condenado a tornar-se um ursano.

Talvez este ursinho estivesse condenado a sentir-se para sempre miserável, infeliz e inadequado na sua roupagem de urso polar, mobilizando todas as suas energias, que seriam cada vez menos, para estar à altura do que se espera de um urso.


Talvez aguardando a situação-limite do esgotamento ou de uma fuga desesperada e despreparada para outras paragens, quando fosse por demais insuportável viver à altura do que não se é.

Talvez ansiando secretamente encontrar um dia outro urso que fosse como ele, mas um que fosse suficientemente corajoso para lhe contar que também vivia com frio para que ele próprio não precisasse de o fazer – e ainda assim ter com quem se identificar clandestinamente e à margem das expectativas, para aliviar o peso da solidão e da alienação. Quem sabe a que estaria o ursinho condenado?

Mas porque foi capaz de o fazer, de admitir que tinha frio e por não ter desistido de procurar quem o ouvisse, o contivesse e o ajudasse – ou, pelo menos, que o aceitasse -, o ursinho transcendeu o karma de ser um ursinho cheio de quadraturas da Lua, do Sol a Saturno e Urano na IV (...)

(© Nuno Michaels 2007. Todos os direitos reservados)

Já conheceram alguém que leia as imagens do inconsciente?

(clique na imagem para a ampliar)

Eu já.

Chama-se Izabel Telles e é brasileira. Viveu muitos anos em Portugal onde estudou Teosofia e finalmente pôde dar, nas suas palavras, "o definitivo salto quântico na minha vida, mudando radicalmente a maneira de ver o mundo e encarar as oportunidades desta vida que muitas vezes vêm sob a forma de obstáculos dolorosos".


Estudou no The American Institute for Mental Imagery, em Nova Iorque e aplicou no Brasil a técnica desenvolvida pelo Dr. Gerald Epstein para criar exercícios com imagens mentais; exercícios instantâneos para modificar estados físicos ou emocionais que podem ser feitos em qualquer lugar desde que possamos estar calmamentes sentado e disponhamos de pelo menos trinta segundos.


Izabel Telles escreveu quatro livros. O primeiro chama-se "O Outro Lado da Alma" (Ed. Axis Mundi), no qual conta a sua experiência como sensitiva - onde relata as imagens que vê impressas na mente humana - e a partir deste dom surgiu a crença absoluta que, através destas imagens, podemos mudar nossa condição de vida.

Os outros livros da Izabel são: “Feche os olhos e veja”, “O Livro das Transformações” e "10 Passos para você se tornar o seu Mestre", todos eles disponíveis nas livrarias portuguesas.


A Izabel descreve-se como uma pesquisadora da mente humana e tem dedicado toda a sua energia e intuição na captação dos conteúdos do inconsciente humano.


No próximo dia 22 de Fevereiro às 21h30 Izabel Telles fará uma conferência pública, de entrada livre, no QUIRON em Lisboa onde falará do seu trabalho e onde exibirá uma sequência de imagens e sons especialmente criada por si para impactar o nosso emocional e o nosso inconsciente.


E no dia seguinte, 23 de Fevereiro, conduzirá uma Oficina Terapêutica com Imagens Mentais em Sintra que descrevo a seguir:

« Nossa mente é povoada com imagens. Imagens que exprimem de forma analógica, criativa, simbólica e exagerada - a linguagem do inconsciente - os sentimentos, crenças, padrões, percepções e registros do mundo.


A energia destas imagens marcam o ritmo da nossa bioquímica, atraindo experiências semelhantes para as nossas vidas.Conhecer estas imagens é como conhecer o “avesso do tapete de nossa teia existencial” - é ter acesso, descobrir padrões inconscientes que vêm criando a nossa realidade concreta e interagir com eles no nível simbólico e energético, podendo transformá-lo. »


Sobre a Técnica a ser utilizada na Oficina Terapêutica:


Vamos formar um grupo de, no máximo, 25 pessoas onde teremos a oportunidade de entrar em contacto com a representação imagético-simbólica da mente e vivenciar a força destas imagens e como elas podem mapear os sentimentos de cada participante em relação:
- ao Universo
- a si próprio
- aos relacionamentos

Reunidos em círculo vamos falar sobre a teoria das imagens mentais, localizar o imaginário de cada participante através de desenhos, sonhos e expressões artísticas.O material é interpretado e depois resignificado através de desenhos e exercícios com imagens mentais.




Importante: não é preciso saber desenhar.


E vamos também construir um Álbum de Propósitos, a ser utilizado durante todo o ano de 2008.

Para inscrições e mais informações, escreva-me para info@nunomichaels.com.



Existe material a ser levado por cada participante para esta Oficina Terapêutica e outras indicações preciosas para quem queira participar.


Atenção: como em qualquer outro trabalho desta natureza, as vagas são limitadas e consideradas por ordem de chegada.


Convite: válido para todas as pessoas para o próximo dia 22 de Fevereiro, às 21h30, no QUIRON - Centro Português de Astrologia, em Lisboa. Vemo-nos lá.


(clique na imagem para a ampliar)




Veja aqui e aqui imagens do local onde a Oficina Terapêutica vai decorrer, no meio da natureza num sítio muito especial no centro de Sintra, e veja aqui como lá chegar.

segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

O Neptuno vai à escola

(clique para ampliar)

No próximo dia 20 de Fevereiro, por iniciativa do professor José Pedro Gomes, com o apoio da minha querida Manuela Reis e com a (abençoada) receptividade do Conselho Executivo da Escola Secundária da Falagueira, irei falar a professores e alunos sobre "Neptuno e a Ilusão".

Nascida de um projecto da área-escola em que os alunos estão a trabalhar o tema da "Ilusão" de diferentes perspectivas, esta oportunidade de espalhar mais sementes de Consciência através da Astrologia e da Metafísica começa a transformar-se, gradual e felizmente, numa nova realidade nas Escolas. Obra de Plutão em Sagitário :-)

Depois de já ter tido oportunidade de partilhar os meus preconceitos noutros estabelecimentos oficiais de ensino, como Escola C+S da Costa da Caparica e o Liceu Pedro Nunes em Lisboa, eis-me a caminho da Falagueira...

Em Março irei a uma Escola integrada em Boliqueime, Algarve (terra do nosso Plerzidente) falar sobre "O Futuro da Educação à Luz da Evolução da Consciência", tal como fiz no Liceu Pedro Nunes com os resultados que podem ser consultados aqui. Sinais dos tempos... e bons sinais, por sinal :-)

quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

O Ursinho Polar (parte 2)

(...) Mas esta ursa não tinha espaço para acolher os sentimentos do filho, porque perante a inquietação o que respondeu foi: claro que és um ursinho polar. Eu sou uma ursa polar pura, o teu pai é um urso polar puro. Concerteza que és um urso polar! Qual é a tua dúvida?! Ai agora duvidas da tua família? Depois de tudo o que fiz por ti, ainda vens duvidar que és o mais especial dos ursinhos polares e que dei tudo para fazer de ti o urso polar que és hoje. Seu ingrato… depois de tudo o que fiz por ti… desde que nasceste nunca mais voltei a ursar como ursava antes.

A resposta instintiva desta mãe não foi a de aceitar e validar o que o ursinho lhe trazia. De ficar com a pergunta e abrir-se ao que ela traria por detrás. De fazer mais perguntas para se certificar da verdadeira pergunta do filho. Esta ursa não sabia que por detrás do discurso manifesto existe sempre um discurso latente, isto é, uma coisa é o que se diz. Outra é o que realmente se quer dizer.

A resposta instintiva desta mãe foi a de invalidar a pergunta do filho sem sequer perceber qual era a pergunta. Esta mãe não tinha espaço. Escondeu-se por detrás da genética (“Eu sou uma ursa polar pura, o teu pai é um urso polar puro”) para demonstrar que a pergunta do filho estava errada e não tinha razão de ser.

Depois, sentindo-se acusada, defendeu-se retornando a acusação: ai agora duvidas da tua família? E, à boa maneira de quem não sabe lidar com o mal-estar do outro sem se sentir por ele posto em questão, fez o filho sentir-se mal por sentir como (ela assumiu que ele) sentia.

Controla a culpa e controlas o filho”, lê-se na cartilha maternal de algumas mães, e esta fazia parte desse bando. Depois de tudo o que fiz por ti, lamentava a ursa, ainda tens a coragem de pôr em questão a tua mãe, as tuas origens, a tua educação. Como se fosse dela que se tratava, e não do filho.

Como se fosse a sua dádiva, o seu empenho, a sua entrega, o seu altruísmo, a sua generosidade, a sua capacidade maternal, a sua imagem, o seu valor, que estivessem em jogo; e não, simplesmente, os sentimentos do filho – dos quais ela nem realmente se apercebeu, de tão auto-envolvida que estava com o seu próprio drama emocional.

O ursinho suspirou, cabisbaixo, e sobrecarregado com o peso da culpa foi ter com o avô e perguntou-lhe:

- Oh Avô!, tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar, mesmo purinho purinho?

Na ausência de eco, e de resposta, por parte daqueles de quem mais imediatamente esperamos apoio, entendimento, compreensão e afecto, viramo-nos para outras figuras significativas na nossa vida afectiva, para lhe levar a questão que o atormentava desde o início da história: serei mesmo um ursinho polar?

Ao que o avô respondeu numa voz rouca e calorosa, enrolando os bigodes com a pata direita e o focinho impondo-se orgulhosamente no ar

- Oh meu neto! És um ursinho dos mais puros, um ursinho puríssimo! Todas as gerações antes de nós eram ursos polares da raça mais pura da espécie mais pura, os pioneiros do glaciar. Tu descendes da mais pura raça de ursos polares de que há memória. Sabes, quando eu era um ursinho da tua idade,…

O avô ficou contente pela oportunidade de dissertar sobre a pureza da raça e a graça da sua genealogia. Possivelmente pouco habituado a ter platéia para as suas divagações, recordações e memórias, aproveitou a pergunta do ursinho para rebuscar no baú das memórias todos os galões que confirmassem o valor dos antepassados fundadores e assim mesmo dos descendentes actuais, e na sua voz rouca quase adivinhamos o orgulho de pertencer a tal linhagem, a força da tradição, o poder quase sagrado dos mitos fundadores.

E o ursinho talvez tivesse ficado a ouvir e aprender, imaginamos, se não estivesse tão angustiado com a questão original que o levara de parente em parente em busca de uma resposta.

E enquanto o avô enrolava os bigodes e relembrava o passado o ursinho correu para o pai

- Oh Pai, eu sou mesmo um ursinho polar, mesmo purinho purinho?

- Claro que és!

E o pai abraçou-o e perguntou-lhe:

- Por quê, meu filho, por que perguntas se és mesmo um ursinho polar, meu querido filho?

E no pai o ursinho encontrou finalmente a resposta que procurava. Não tanto a confirmação de que era mesmo um urso polar, porque essa já a mãe e o avô lha haviam dado e a dúvida ainda assim subsistira; mas um espaço de receptividade: um abraço e a vontade de o compreenderem, de o escutarem, de o receberem na sua dúvida, no seu questionamento, na sua incerteza, na sua necessidade de confirmação. Por que perguntas, que é como quem diz, o que é que se esconde por detrás da tua pergunta? O que há que te leve a colocar essa questão? Qual é o mal-estar que posso tentar mitigar?

E responde o ursinho a tremer, quase a chorar e abraçando-se a si próprio: “tenho frio!...”

E agora tudo se desvela, tudo se desvenda, tudo se resolve. O ursinho tremia por causa do frio, e não (tanto) por qualquer medo que tivesse.

Mas o frio, aqui, ao invés de encerrar a história e dá-la por terminada, abre caminho a uma nova história, a outra história, à verdadeira história.

O ursinho sentia-se inadequado, sentia-se profundamente desconfortável por estar aquém do seria de esperar de um urso polar, em falta para com aquilo que define um habitante do Ártico.

O ursinho sentia-se corroído pelo sentimento de inadequação por não estar à altura das expectativas, das funções, do papel de um urso polar. Adivinhamos-lhe a vergonha, o desconforto na própria pele, o medo de não ser suficientemente bom, a ambivalência de saber intelectualmente, por um lado, que um urso polar não tem frio e a honestidade em admitir, por outro lado, o que verdadeiramente sentia.

E aqui encontramos mais um tema arquetípico da existência (...)

(© Nuno Michaels 2007. Todos os direitos reservados)