Esta é a primeira parte da história do Ursinho Polar, que escrevi a propósito de uma anedota ouvida há uns anos na Praia Deserta ao largo de Faro.
Foi com esta história que comecei o workshop sobre a Lua Astrológica que conduzi no Porto no passado dia 26 de Janeiro.
Assim, quem não esteve pode ler aqui a primeira parte. E quem esteve, pode recordar o início daquele que foi um dia maravilhoso em que tantos insights partilhámos sobre a infância, as necessidades emocionais e as etapas mais precoces, largamente inconscientes, do nosso desenvolvimento psicológico com os diferentes padrões que a partir daí se formam.
Porque a metáfora, a poesia e a literatura são, no meu preconceito, uma das maneiras mais maravilhosas de reconhecermos os temas arquetípicos que na nossa vida se reencenam uma e outra vez...
O URSINHO POLAR
Era uma vez um ursinho polar. Um dia o ursinho foi ter com a mãe e perguntou-lhe a tremer:
Oh Mãe!, tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar, mesmo purinho purinho??
E a mãe respondeu-lhe.
- Claro que és um ursinho polar. Eu sou uma ursa polar pura, o teu pai é um urso polar puro. Concerteza que és um urso polar! Qual é a dúvida?! Agora duvidas da tua família? Depois de tudo o que fiz por ti, ainda vens duvidar que és o mais especial dos ursinhos polares e que dei tudo para fazer de ti o urso que és hoje. Seu ingrato… depois de tudo o que fiz por ti… desde que nasceste nunca mais voltei a ursar como ursava antes.
E a mãe ficou a lamentar-se da sua triste sina e da ingratidão do ursinho.
O ursinho suspirou, cabisbaixo, e sobrecarregado com o peso da culpa foi ter com o avô e perguntou-lhe:
- Oh Avô!, tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar, mesmo purinho purinho?
Ao que o avô respondeu numa voz rouca e calorosa, enrolando os bigodes com a pata direita e o focinho impondo-se orgulhosamente no ar.
- Oh meu neto! És um ursinho dos mais puros, um ursinho puríssimo! Todas as gerações antes de nós eram ursos polares da raça mais pura da espécie mais pura, os pioneiros do glaciar. Tu descendes da mais pura raça de ursos polares de que há memória. Sabes, quando eu era um ursinho da tua idade,…
E enquanto o avô enrolava os bigodes e relembrava o passado o ursinho correu para o pai
- Oh Pai, eu sou mesmo um ursinho polar, mesmo purinho purinho?
- Claro que és!
E o pai abraçou-o e perguntou-lhe:
- Por quê, meu filho, por que perguntas se és mesmo um ursinho polar, meu querido filho?
E responde o ursinho a tremer, quase a chorar e abraçando-se a si próprio: “tenho frio!...”
Esta história, que é o pretexto para vos contar uma outra história dentro da história, pode ser lida como uma anedota, uma estória inconsequente que nos faz sorrir ou embevecer ao imaginar o ursinho cheio de frio na sua pele.
Mas esta mesma história também pode ser lida metaforicamente, se lhe impusermos uma certa grelha de leitura. A grelha de leitura de quem pensa o mundo em termos de arquétipos, de grandes princípios universais que se repetem milhões de vezes, em miríades de formas diferentes, mas que nos ensinam sobre os temas fundamentais e eternos da natureza humana através, e apesar, das suas múltiplas experiências humanas no mundo. A grelha de leitura de quem vê a vida como a manifestação de processos dinâmicos e energéticos regidos por leis rigorosas e que têm como fundamento, e como destino mais glorioso, a produção de consciência.
Era uma vez um ursinho polar.
Todas as histórias começam com “era uma vez…”. Naquele tempo, in illo tempore, num tempo remoto, sem data nem início, não num qualquer momento no passado, porque de repente já havia - já tinha começado… sem começar.
Os tempos sem tempo criam um rompimento no fundo da memória, e assim nos podemos abrir a uma história eterna, que sempre existiu e sempre existirá, e ela assim pode fluir através de nós, sem estranheza e sem necessidade de reconhecimento, e a história circular pode manifestar-se num ponto do tempo, o do momento em que ouvimos a história pela primeira vez, de cada vez. O ponto no círculo do eterno é o eterno aqui e agora.
Era uma vez é a ligação do aqui e agora com outro aqui e agora que tanto existe no passado como existirá no mesmo sítio no futuro, sempre no mesmo sítio e em todos os tempos possíveis, ao mesmo tempo. Ou em sítio nenhum, em tempo nenhum. Simplesmente uma vez.
Era uma vez… um ursinho polar.
Um ursinho polar é uma personagem com quem é fácil identificarmo-nos. Provavelmente dócil, fofinho, peludo, inofensivo – e branco. Uma personagem do imaginário infantil, com reminiscências de peluche e a pureza da branca de neve. O arquétipo perfeito da parte mais inocente, principiante, inofensiva e desprotegida de nós.
Um dia o ursinho polar foi ter com a mãe e perguntou-lhe a tremer: tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar, mesmo purinho, purinho?
Não é difícil assumir que o ursinho tremia por estar inseguro, ou com medo no momento de fazer a pergunta, porque temos a tendência profundamente humana de projectar a nossa própria subjectividade sobre o exterior e sobre os outros, interpretando – e reduzindo – tudo à nossa própria escala.
Assim como ao deprimido tudo parece triste e sem graça e ao agressivo tudo é sinal de ameaça hostil, à pessoa que não confia no seu próprio valor qualquer comentário dos outros soa a julgamento depreciativo e criticismo e ao sexualmente reprimido tudo parece imoral, sujo e mau – assim estamos todos condenados a fazer julgamentos que nascem das nossas interpretações subjectivas, assumindo que é a verdade a nossa própria produção subjectiva de significados.
E quando treme o ursinho polar ao dirigir-se à mãe, é fácil assumir que é por desconforto emocional, insegurança ou por estar amedrontado quando lhe pergunta sobre a sua verdadeira origem: tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar, mesmo purinho, purinho?
A primeira pessoa para quem nos viramos em busca de conforto e segurança, perante as inquietações da existência ou simplesmente para encontrar colo, calor e comida, é a nossa mãe.
Desde o nascimento estamos instintivamente programados para buscar um seio e nesse seio refúgio, espelho da nossa identidade, confirmação da nossa existência, protecção, sobrevivência.
Todos nascemos com a expectativa arquetípica de que um mamífero mais forte, mais seguro, mais auto-suficiente nos proteja e cuide até sermos capazes de o fazer por nós próprios. E sabemos que é da qualidade dessa primeira interacção que depende a futura capacidade de nos tranquilizarmos a nós próprios e de cuidarmos dos outros, de nos sentirmos merecedores de colo e carinho, de confiar que a vida é boa e sempre satisfará as nossas necessidades de afecto, segurança, protecção e nutrimento, venha ele sob a forma de amor, dinheiro, alimento ou gratificação e bem-estar emocional. E de podermos dar aos outros o que nós próprios recebemos, porque é difícil poder dar o que se não recebeu.
E sabemos, por isso, que a capacidade instintiva da mãe empatizar com o filho, reflectir os seus sentimentos e saber acolhê-los, de sintonizar o seu ritmo emocional com o ritmo da sua criança, saber espontanea e imediatamente como responder a esses estímulos emocionais – essa capacidade não nasce da reflexão, da análise, de ponderação das várias possibilidades, da lógica e do questionamento, de ler livros ou assistir a cursos sobre como cuidar do bebé.
Nasce, sim, de um instinto inato que eclode nas próprias entranhas, do à-vontade com os próprios sentimentos, com a qualidade da sua própria experiência emocional, da qualidade da sua relação com a sua própria mãe e com a capacidade daquela lhe ter espelhado de forma pura os próprios sentimentos – e da capacidade de receber, simplesmente, o que o filho lhe traz a cada novo momento, aceitando e validando os estímulos e reacções emocionais pelo que são – sentimentos que, pela sua própria natureza, não obedecem a regras da lógica, não precisam de justificação, e não têm nada que ver com o próprio desempenho como mãe.
Mas para isto, é preciso que a mãe não interprete pessoal e subjectivamente as reacções emocionais do próprio filho – isto é, que saiba aceitar a dinâmica própria dos sentimentos do outro sem que tudo tenha necessariamente que ver consigo, com o seu valor como mãe, com o seu desempenho materno. Em suma, sem que a insegurança do filho active a sua própria insegurança interna.
Se não, a insegurança ou instabilidade no filho vão fazer emergir a dolorosa insegurança e instabilidade na própria mãe, que não vai poder acolher, aceitar e validar os sentimentos do outro sem julgar ou julgar-se, sem questionar ou questionar-se, sem duvidar de si própria, sem cair na facilidade da auto-justificação, na culpabilização ou no lamento.
Mas esta ursa não tinha espaço para acolher os sentimentos do filho (...)
(© Nuno Michaels 2007. Todos os direitos reservados)



