terça-feira, 23 de Setembro de 2008

A Verdade - Carlos Drummond de Andrade

A VERDADE

A porta da Verdade estava aberta.

Mas só deixava passar meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade, porque
cada metade trazia o perfil da meia verdade
e a segunda metade
voltava igualmente com meio perfil
e os meios perfis não coincidiam.

Rebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso
onde a Verdade esplendia em fogos.

Era dividida em metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela,
nenhuma das 2 partes era totalmente bela.

E era preciso optar.

Cada um optou
conforme o seu capricho, a sua ilusão, a sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

1 comentários:

VIDA disse...

Uma inconsciente paixão, desmesurada, por uma só metade.

Paz