Estão em toda a parte.
Não têm nenhuma característica distintiva exterior, revelam-se mais bem pelo comportamento inconfundível.
Só pensam em si próprios e nos seus próprios caprichos e impulsos, ignorando boçalmente qualquer realidade circundante. Nada existe ao seu redor para além dos seus próprios assuntos, nos quais mergulham com tal entrega incondicional que quase se suporia não existir nada, nenhum universo ao redor deles. Não se trata bem que pensem só em si próprios; trata-se, mais bem, de não chegarem sequer a pensar. Porque pensar requer uma reflexão, um contraste e um regresso a si próprio depois de um encontro com o exterior, depois da existência do exterior ter sido reconhecida.
Para os auto-envolvidos, não existe o exterior. Só existe o desejo espontâneo, irreprimível e irreprimido, independentemente da possibilidade de que as suas escolhas possam ter algum tipo de impacto sobre o exterior, sobre os outros, e a urgência em satisfazê-los, aos impulsos, por quaisquer meios e a qualquer custo, tenham ou não tenham qualquer tipo de implicação sobre as vidas dos outros.
Em grande parte dos casos, não é que se estejam a borrifar para os outros. É que a consciência dos outros como seres com existências, necessidades e limites próprios, não entraram ainda, sequer, no horizonte de consideração dos auto-envolvidos. Não é tanto um acto de maldade, é simplesmente um acto de ignorância. Não é um acto de egoísmo, é um acto de egocentrismo. Não é uma reacção ponderada, escolhida, reflectida, como se apesar de reconhecerem os outros ainda assim optassem por os ignorar.
Em grande parte dos casos, trata-se de uma incapacidade ainda não curada de levantar os olhos da própria barriga e olhar em frente, para fora, para os outros. O redemoínho das necessidades e emoções pessoais é demasiado forte para deixar pensar noutras coisas. Para os auto-envolvidos, não existe vida para lá do próprio umbigo.
Noutros casos, os auto-envolvidos sofrem é da falta de amor, que é a mais tremenda ausência de se ter. Uma luz que se ainda não acendeu, uma suspeita que ainda não desceu ao pensamento, um vislumbre que ainda não foi possível. Um dia, abrir-se-ão as pétalas do coração e vencerão o medo, a violência, a separação, o medo, o medo por detrás da maldade. Mas até que se opere essa alquimia, os auto-envolvidos continuarão a sê-lo, e apesar de haver cura, que é, como em tudo o resto na vida, Amor, é a partir do medo, do egoísmo, da falta de consideração e de respeito, da sobrevivência, da prepotência e da ignorância que os auto-envolvidos continuarão a viver.
E a estar por toda a parte.
Hoje, em particular, foi um dia cheio destes encontros com o auto-envolvimento, como se o Universo estivesse disposto a empurrar-me para o teclado de modo a que escrevesse sobre isto, que partilhasse o que penso e observo, e não ficasse sozinho a pensar, metido com os meus botões… auto-envolvido.
Estes são flashs experienciados num intervalo de poucas horas, em vários cantos de uma cidade redonda.
Flash 1
Um grupo de dez pessoas tem uma tarefa comum. Cada uma delas precisa fazer uma apresentação de dez minutos, com dois de tolerância, e o tempo é o único critério para a avaliação do seu desempenho. Para que não precisem de se preocupar com a gestão do tempo, fica combinado receberem um sinal quando passarem dez minutos, de modo a poderem encaminhar a apresentação para um final e assim cumprirem o objectivo do tempo dentro dos limites impostos.
As apresentações começam. Apesar de ser um grupo, e de o sucesso da tarefa ser responsabilidade colectiva, tanto quanto individual, ninguém parece estar interessado no gesto que sinaliza o final do tempo permitido. Mesmo depois do sinal ser dado, e de ser importante que as apresentações terminem, os outros membros do grupo não páram de colocar perguntas, pedir esclarecimentos, contribuir com as suas próprias (e longas) dissertações sobre os assuntos em apreço obrigando o colega a prolongar a apresentação que já deveria ter terminado.
Alguém levanta o braço, quer participar. Noutra cadeira sente-se um impulso, alguém se lembrou de mais qualquer coisa para fazer perder tempo. O tempo continua a passar, a contar. Aqueles que fazem a apresentação não querem deixar os colegas sem resposta e às vezes perdem-se, eles próprios, no tempo e mais tarde ficam chocados quando descobrem que duplicaram, quase triplicaram, o tempo permitindo, falhando rotundamente na tarefa proposta.
Ninguém no grupo parece querer assumir a sua quota de responsabilidade no fracasso colectivo, e alguns ainda parecem admirados por o relógio não se ter compadecido com as demoras provocadas pela mesquinhez das suas contribuições. Um grupo? Não. Um conjunto de auto-envolvidos.
Flash 2
Entro num café, peço a chave da casa-de-banho. A bexiga anda afligida com os litros de água que se bebem no verão, embora os rins agradeçam enquanto as sudoríperas reclamam.
A chave demora a chegar, porque o empregado do café tem um ritmo próprio. Nada o empurra para fora do seu percurso lento, quase ponderado, entre as prateleiras do pão e a caixa registradora.
Mais uma eternidade passa a propósito de uns trocos.
A bexiga já pede ajuda aos orgãos todos para não se transbordar. As pernas cruzam e o períneo contrai, os braços congelam e o corpo fica imóvel, fica só a boca a operar enquanto a indignação com a espera sobe pela espinha e o desespero desce pelas pernas. Finalmente consigo pedir a chave, depois de mais seis bolas mal cozidas e dois pastéis de bacalhau que seguem num saquinho de papel enquanto o períneo é levado ao limite.
Finalmente a chave chega, e o alívio nunca pareceu tão possível, tão ao alcance.
Chave na fechadura e a porta revela a surpresa: uma sanita acabada de usar cheia de fezes pastosas, um cheio nauseabundo, o autoclismo ali à mão de semear, esquecido e por usar. Um cheiro que aniquila ao fim de poucos minutos a respirá-lo. Perante a imagem de usar aquelea sanita a ideia de me urinar pelas pernas abaixo parece até bastante higiénica. Quase me vomito com a ideia de usar aquele sanitário. Quem é que disse que sanitário vem de são?
O auto-envolvido que empastelou a casa-de-banho toda antes de mim devia acreditar que o Mundo iria acabar dali por segundos, antes de mais alguém usar o sanitário.
Alguém me socorre se eu desmaiar antes enquanto o mundo não se acaba?
Flash 3
O taxista dobra a curva e tem um susto. Um carro parado ocupa toda a faixa de rodagem. A visibilidade em lado contrário é nula. O taxista toma uma decisão, confiando no instinto. Ultrapassa o carro parado e ambos rezamos, durante 3 segundos, que não venha nenhum em contra-mão. Estavam atentos lá em cima e já tinham começado a controlar o trânsito em nosso benefício. A ultrapassagem, embora improvisada e suplicante, fora bem sucedida.
Retomada a marcha normal, o taxista explode, talvez de reacção nervosa – ah!, estes cabr*ões!... pensam que a estrada é só deles…
Eu encorajo, para ver o que ele diz: - é verdade, é como se não existisse mais ninguém…
A observação parece fazer eco. Olha-me pelo retrovisor, como se para ver se podia confiar os seus pensamentos mais secretos, e partilha em tom de confissão: - olhe, às vezes não sei se as pessoas são más, ou simplesmente estúpidas. Para fazerem isto, ou são mesmo más, ou então não têm nada dentro. Mas alguma coisa têm que ter dentro, não acha? Eu não quero acreditar que as pessoas não tenham nada dentro.
Fiquei-me a saborear as possibilidades interpretativas daquele “nada” que pode ser chamado de tanta coisa...

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