quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

O Ursinho Polar (parte 2)

(...) Mas esta ursa não tinha espaço para acolher os sentimentos do filho, porque perante a inquietação o que respondeu foi: claro que és um ursinho polar. Eu sou uma ursa polar pura, o teu pai é um urso polar puro. Concerteza que és um urso polar! Qual é a tua dúvida?! Ai agora duvidas da tua família? Depois de tudo o que fiz por ti, ainda vens duvidar que és o mais especial dos ursinhos polares e que dei tudo para fazer de ti o urso polar que és hoje. Seu ingrato… depois de tudo o que fiz por ti… desde que nasceste nunca mais voltei a ursar como ursava antes.

A resposta instintiva desta mãe não foi a de aceitar e validar o que o ursinho lhe trazia. De ficar com a pergunta e abrir-se ao que ela traria por detrás. De fazer mais perguntas para se certificar da verdadeira pergunta do filho. Esta ursa não sabia que por detrás do discurso manifesto existe sempre um discurso latente, isto é, uma coisa é o que se diz. Outra é o que realmente se quer dizer.

A resposta instintiva desta mãe foi a de invalidar a pergunta do filho sem sequer perceber qual era a pergunta. Esta mãe não tinha espaço. Escondeu-se por detrás da genética (“Eu sou uma ursa polar pura, o teu pai é um urso polar puro”) para demonstrar que a pergunta do filho estava errada e não tinha razão de ser.

Depois, sentindo-se acusada, defendeu-se retornando a acusação: ai agora duvidas da tua família? E, à boa maneira de quem não sabe lidar com o mal-estar do outro sem se sentir por ele posto em questão, fez o filho sentir-se mal por sentir como (ela assumiu que ele) sentia.

Controla a culpa e controlas o filho”, lê-se na cartilha maternal de algumas mães, e esta fazia parte desse bando. Depois de tudo o que fiz por ti, lamentava a ursa, ainda tens a coragem de pôr em questão a tua mãe, as tuas origens, a tua educação. Como se fosse dela que se tratava, e não do filho.

Como se fosse a sua dádiva, o seu empenho, a sua entrega, o seu altruísmo, a sua generosidade, a sua capacidade maternal, a sua imagem, o seu valor, que estivessem em jogo; e não, simplesmente, os sentimentos do filho – dos quais ela nem realmente se apercebeu, de tão auto-envolvida que estava com o seu próprio drama emocional.

O ursinho suspirou, cabisbaixo, e sobrecarregado com o peso da culpa foi ter com o avô e perguntou-lhe:

- Oh Avô!, tens mesmo a certeza que eu sou um ursinho polar, mesmo purinho purinho?

Na ausência de eco, e de resposta, por parte daqueles de quem mais imediatamente esperamos apoio, entendimento, compreensão e afecto, viramo-nos para outras figuras significativas na nossa vida afectiva, para lhe levar a questão que o atormentava desde o início da história: serei mesmo um ursinho polar?

Ao que o avô respondeu numa voz rouca e calorosa, enrolando os bigodes com a pata direita e o focinho impondo-se orgulhosamente no ar

- Oh meu neto! És um ursinho dos mais puros, um ursinho puríssimo! Todas as gerações antes de nós eram ursos polares da raça mais pura da espécie mais pura, os pioneiros do glaciar. Tu descendes da mais pura raça de ursos polares de que há memória. Sabes, quando eu era um ursinho da tua idade,…

O avô ficou contente pela oportunidade de dissertar sobre a pureza da raça e a graça da sua genealogia. Possivelmente pouco habituado a ter platéia para as suas divagações, recordações e memórias, aproveitou a pergunta do ursinho para rebuscar no baú das memórias todos os galões que confirmassem o valor dos antepassados fundadores e assim mesmo dos descendentes actuais, e na sua voz rouca quase adivinhamos o orgulho de pertencer a tal linhagem, a força da tradição, o poder quase sagrado dos mitos fundadores.

E o ursinho talvez tivesse ficado a ouvir e aprender, imaginamos, se não estivesse tão angustiado com a questão original que o levara de parente em parente em busca de uma resposta.

E enquanto o avô enrolava os bigodes e relembrava o passado o ursinho correu para o pai

- Oh Pai, eu sou mesmo um ursinho polar, mesmo purinho purinho?

- Claro que és!

E o pai abraçou-o e perguntou-lhe:

- Por quê, meu filho, por que perguntas se és mesmo um ursinho polar, meu querido filho?

E no pai o ursinho encontrou finalmente a resposta que procurava. Não tanto a confirmação de que era mesmo um urso polar, porque essa já a mãe e o avô lha haviam dado e a dúvida ainda assim subsistira; mas um espaço de receptividade: um abraço e a vontade de o compreenderem, de o escutarem, de o receberem na sua dúvida, no seu questionamento, na sua incerteza, na sua necessidade de confirmação. Por que perguntas, que é como quem diz, o que é que se esconde por detrás da tua pergunta? O que há que te leve a colocar essa questão? Qual é o mal-estar que posso tentar mitigar?

E responde o ursinho a tremer, quase a chorar e abraçando-se a si próprio: “tenho frio!...”

E agora tudo se desvela, tudo se desvenda, tudo se resolve. O ursinho tremia por causa do frio, e não (tanto) por qualquer medo que tivesse.

Mas o frio, aqui, ao invés de encerrar a história e dá-la por terminada, abre caminho a uma nova história, a outra história, à verdadeira história.

O ursinho sentia-se inadequado, sentia-se profundamente desconfortável por estar aquém do seria de esperar de um urso polar, em falta para com aquilo que define um habitante do Ártico.

O ursinho sentia-se corroído pelo sentimento de inadequação por não estar à altura das expectativas, das funções, do papel de um urso polar. Adivinhamos-lhe a vergonha, o desconforto na própria pele, o medo de não ser suficientemente bom, a ambivalência de saber intelectualmente, por um lado, que um urso polar não tem frio e a honestidade em admitir, por outro lado, o que verdadeiramente sentia.

E aqui encontramos mais um tema arquetípico da existência (...)

(© Nuno Michaels 2007. Todos os direitos reservados)

2 comentários:

Alda Arnauth disse...

Lindo!!!
Nuno, tu consegues sempre surpreender-me!!!
E eu que já conhecia a história...
Continua o teu trabalho de abertura de consciências... é muito importante...
Um abraço graaaaaaande...
Alda Arnauth

Pooh disse...

li toda a história e fiquei fascinado.
agradecido por esta oportunidade

adorei.