"... mas isso é científico?...", perguntam-nos tantos com narizes torcidos, esgares retorcidos e olhos lassos
e há no meu suspiro ironias e cansaços...
por que não perguntam antes coisas sobre a própria Astrologia (qual é o seu modelo, quais os seus pressupostos, qual a sua vocação, os seus propósitos, as suas possibilidades, como pensam os astrólogos, em que discordam, com que assuntos éticos se debatem, que dificuldades têm, quantas abordagens existem à Astrologia, se existem interpretações universais e indistintas dos mesmos factores, como pode ajudar o ser humano, se existe relação com alguma religião, etc.), em vez de limitarem as perguntas a questionar a validade científica ou a sua mercantilização imbecilizante e usurpadora - no fundo, uma das formas, a mais repreensível de todas -, da sua apresentação final?
É que, vamos dimensionar a coisa em termos compreensiveis para a pequenina mente moderna, ocupada de provas, factos, demonstrações, racionalizações e... números, quantidades - em vez de arquétipos, energias, temas existenciais e princípios, qualidades:
em Marketing, por exemplo, é clássico (embora alguns considerem ultrapassado, falando de seis, alguns, de sete e de nove, de dez ou de doze P's do marketing) entender-se a situação de um produto/serviço no mercado em função do chamado marketing-mix. Os chamados "4 P's do marketing mix" são o produto (Product), o preço (Price), a distribuição (Place) e a comunicação (Promotion).
O produto "Astrologia" muito poucos sabem o que é - excepto aqueles, quanto muito, que realmente se dedicam a aprendê-la. Mas esses, a única coisa que saberão, provavelmente, é que continuam a aprender e que, quanto mais aprendem, mais sentido retiram de toda a experiencia, e mais fácil é entrar num processo de acelerada transformação pessoal e de expansão da consciência.
E ainda assim, é uma área tão imensa que ninguém no seu juízo perfeito poderá afirmar, em reconhecimento da verdade, que "sabe" realmente Astrologia, que conhece cabalmente o "produto", que tem o domínio que lhe confere a legitimidade de fundar a "narrativa original" a partir do qual se origine um consenso que sirva de ponto de partida a uma verdadeira discussão sobre o assunto.
Que se entra numa espiral acelerada de compreensão súbita, e de reverência pela imensidão do Mistério, isso é tudo o que se sabe.
E isso traz imensa paz, o conhecimento puramente intelectual deixa de ser importante. Passa-se a compreender a Vida intuitivamente - o aparelho de pensar deixa de precisar trabalhar em inutilidades, em continuar a trabalhar a seco e no vazio de energia espiritual. Como um moínho eléctrico que se aquieta, que se desliga e só se liga quando é necessário fazer um refresh nas ideias, e então faz-se F5 e actualiza-se o écran mental, volta-se a ligá-lo, que é como quem diz, liga-se outra vez o moínho para usar enquanto for preciso, para o desligar novamente em seguida para não perder mais energia. E é um sossego quando isso sucede.
Mas saber, no sentido de haver uma certeza fundamental que esteja na base da realidade, fazendo com que algo de fundamentalmente verdadeiro e cognoscível exista que possa ser aceite como uma evidência, a única coisa que realmente sabemos é que quanto mais sabemos menos sabemos, e que quanto mais compreendemos menos temos a necessidade de compreender e passamos muito mais a simplesmente experienciar a experiencia, com a consciência objectiva do que está a acontecer, e a experiencia de vida transforma-se num processo extremamente simples, impessoal e objectivo: um processo de manifestação de energias a ter lugar através de nós.
Mas sobre o produto "Astrologia" ninguém sabe nada, no fundo, nada de total quero eu dizer. Cada um tem a sua visão, fruto da sua miopia e do seu estudo, da sua intuição e da qualidade do seu Coração, do seu percurso de vida e da sua própria natureza, e de miríades de outros factores, inomináveis de tantos e inúteis.
Aquilo que uma massa de pessoas pode partilhar como conhecimento sobre uma realidade que não conhece não é verdadeira episteme, não é verdadeiro conhecimento; é mais do domínio da doxa, da opinião. É uma narrativa partilhada, que circula infinitamente pelos circuitos sociais da comunicação de massa, que ao ser enriquecida de novos conhecimentos não se torna propriedade de todos, mas apenas de alguns, daqueles que ressoam com esses conhecimentos.
Colectivamente, o avançar do conhecimento não torna as representações colectivas mais lúcidas ou esclarecidas; pelo contrário, torna-as mais vagas, ainda mais abstractas, ainda mais genéricas, porque há dados novos numa meada à qual já perdemos o fio há muito tempo e ainda nos esforçamos por compreender os seus desenvolvimentos, inutilmente. O que a massa partilha é, na essência, uma representação social fabricada entre o imaginário colectivo inconsciente e as narrativas produzidas em circulação.
Em suma, sobre o "Produto" ninguém sabe muito bem do que está a falar.
Sobre o Preço, a massa parece de acordo numa coisa: seja qual for o preço, e seja qual for o valor (que são coisas profundamente diferentes), é caro. Aliás, nem deveria ser cobrado, ter um preço. Não deveria servir para ninguém ganhar dinheiro - independentemente do quanto tenha investido, do que tenha abdicado, da qualidade do trabalho que faça. Ganhar dinheiro "eticamente" é a ser engenheiro, arquitecto, médico, psicólogo, construtor civil, ter uma profissão "normal". Não sei bem em que categoria se encaixariam os banqueiros, os políticos, o jet-set, os modelos e actores das televisões das massas e os senhores por detrás da comunicação social, mas uma coisa é certa - os astrólogos não deveriam ganhar dinheiro com um "Produto" que na realidade ninguém sequer sabe qual é.
Sobre a Distribuição, está por todo o lado. Em revistas, em sites, na televisão, nos jornais, nas bancas em almanaques, espalhando-se selvagem e perigosamente sem nenhuma marca distintiva exterior da sua qualidade relativa - porque apenas a intuição desenvolvida pode ajudar a discriminar.
A Distribuição do produto/serviço "Astrologia" está tão generalizado que a pobreza generalizada é uma consequência inevitável - acontece o mesmo com os conteúdos televisivos, o refinamento do conteúdo dos programas e jornais desportivos, com o pronto-a-vestir, com as obras "literárias" para consumo das massas: a quantas mais pessoas se tem de chegar, mais tem de se sacrificar a qualidade.
Além disso, hoje em dia pululam astrólogos (onde me incluo, eu também pululo e toda a gente tem direito a pulular - defenda, desde já, o seu direito a pulular. Pulule connosco!), centros de "terapias" e "gurus espirituais" que "canalizam" entidades supostamente mais evoluídas do que eles próprios, pululam portais, pululam ameças de destruição do planeta se não seguirmos os novos dez mandamentos escritos há dois anos por qualquer esquizofrenico num surto psicótico - ou numa trip de cogumelos mágicos (e há trips bastante más!) que largas porções da humanidade actual, desorientada e desesperada, seguem e engolem bovinamente.
Há tantos "iluminados" que sabem exactamente o que os outros "devem" fazer das suas vidas para "evoluir". Geralmente, culpabilizando, julgando, acusando e tentando manipular e controlar os outros escondidos na sua mesquinha estupidez por detrás da capa de "astrólogos", "terapeutas" e outros quejandos. Ainda se safam porque a maioria da humanidade ainda vive nesta Nova Era como vivia a relação com a igreja há quase dois mil anos: obedientemente, acriticamente, e aliviados por ter alguém que lhes diga o que fazer e a quem possam entregar o poder de pensar, o poder de escolher, o poder de decidir.
Mas bom, isto era a propósito da Distribuição e estes são os "pontos de venda" modernos da nossa arte bem-amada.
Quanto à Comunicação, há embrulhos e pacotes para todos os gostos. Desde os pregões do "resolver problemas" até ao "prever o futuro", passando pelas glamourosas explicações "kármicas" de que na vida passada éramos sacerdotes na Atlântida (não admira que se tenha afundado, ninguém trabalhava, com a quantidade de sacerdotes na Atlântida que existia não devia haver muita gente capaz de fazer algo de realmente útil por essa sociedade...) ou que éramos muito agressivos e furávamos os olhos a quem nos olhava de lado e por isso é que nascemos vesgos, ou que abandonámos os nossos maridos por isso é que agora temos que levar com este, há de tudo.
Com um Produto desconhecido das massas, com um Preço impossível, com uma Distribuição adequada a uma sociedade desconectada, tonta e fascinada com o materialismo e a materialidade, e uma Comunicação destinada mais a manipular e enganar o seu target, não admira que precisemos de nos interrogar: mas isso é científico?
Claro que não é científico. É metafísico.
Mas grave, grave, não é que não seja científico. É que ainda existam tantos, cada vez mais, a tentar aproveitar-se de tantos, cada vez menos. A este ritmo, qualquer dia não há otários. Somos todos "iluminados" (desde que façamos o que o astrólogo nos diz, se nos vestirmos como ele, e usarmos o mesmo gel de banho, naturalmente, e nunca questionarmos a sua suposta "sabedoria" que mora nos astros, muito muito acima da capacidade de entendimento dos meros mortais..)
E mais grave ainda é que alguns tenham de trabalhar dentro desta caldeirada. Que nos ajude deus a recordar a verdade curta, simples, e luminosa de que cada um tem os astrólogos (e tudo o resto) que merece.
Mas digam lá, não querem mesmo saber nada sobre a própria Astrologia? Compreendo, só vos interessa o facto de haver um preço, tantos ponto de venda não qualificados, e uma política de comunicação que é fruto da própria sociedade em que circula...
Compreendo, é a moderna mente light, a moderna mente polarizada nas aparências, a moderna mente demente.